Improbabilidades redentoras
Um tetraplégico, rico e culto. Um desempregado dos subúrbios acabado de saír da prisão, contratado para prestar cuidados.
Um filme sobre uma amizade improvável, contado com humor e sensibilidade. De como se aprende muito de quem não se espera; de como se pode dar muito, mesmo sem disso dar conta; de como as voltas da vida trazem malas cheias de ironia e de surpresa. E de como aparentes casualidades podem abrir portas de significado e de esperança.
Inspirado numa história real, que se conta aqui.
Sobre Deus e a sua inexistência
No passado dia 23 de Fevereiro realizou-se, na Universidade de Oxford, um debate entre Richard Dawkins, talvez o mais conhecido e reputado 'ateísta científico' e Rowan Williams, Arcebispo de Cantuária, líder da Igreja Anglicana. O tema foi "A natureza do ser humano e a questão da sua origem". Não se descobriu nenhum dado novo, não se chegou a nenhum consenso confortável, não se converteu ninguém, nem ninguém perdeu a fé. Mas é sempre interessante assistir a uma conversa inteligente.
Downton Abbey
Começou este sábado a ser transmitida na SIC a série Downton Abbey, depois de ter passado na Fox Life. É, sem dúvida, das melhores séries actualmente em exibição.
Traz reminiscências de "Reviver o passado em Brideshead", de há trinta anos atrás e, sobretudo, de Gosford Park, também escrito, aliás, por Julian Fellowes. A não perder.
Violência Doméstica II: Por que é que ela não o deixa?
Quem tem a sorte de não fazer parte dos dinamismos viciados das relações violentas, tende a simplificar as coisas. E perante casos de violência de género, há quem pergunte com singeleza de espírito: mas por que é que ela não o deixa?
O primeiro dado a reter é que, de facto, muitas das mulheres agredidas acabam por abandonar as relações. Os estudos de Jacobson e Gottman, por exemplo, sugerem que em mais de metade dos casos é isso que acontece.
E nos outros casos?
Em primeiro lugar, convém lembrar que é muito mais fácil entrar numa relação violenta do que sair dela. E o medo cumpre aqui um papel central. Um medo que, com o tempo, se tornou quase um estado de espírito permanente; que se transformou no principal critério na hora de tomar qualquer decisão, desde as insignificantes, como decidir que roupa vestir, até às fundamentais, como a de abandonar ou não a relação.
E este medo tem fundamento. As possibilidades de ser brutalmente agredida ou até assassinada aumentam exponencialmente durante os meses posteriores à separação. Confiram-se as estatísticas...
Em segundo lugar, muitas mulheres enredadas em relações assim, não dispõem de recursos, nem de independência financeira. Aliás, faz parte da dinâmica destes casos a dependência dos agressores, que eles se asseguram de manter, como forma de controlo. A esta percepção de vulnerabilidade económica, soma-se, frequentemente, a presença de filhos pequenos que, por um lado não se quer deixar e, por outro, se pensa impossível sustentar.
Em terceiro lugar, depois de ser submetida a abusos físicos e psicológicos durante muito tempo, de forma sistemática, a vítima é despojada da sua auto-estima, até ao ponto de chegar a acreditar que precisa do seu marido para sobreviver. O mais frequente é que uma mulher maltratada anos a fio se tenha a si mesma em baixa conta, se considere incapaz, insegura e totalmente dependente daquele que a agride. O marido maltratador passa anos a dizer-lhe que não vale nada, que é incompetente, feia e estúpida. E, com o tempo, isso interioriza-se. É comum que estas mulheres acabem por apresentar os sintomas típicos do Sindrome de Stress Pós-Traumático: depressão, ansiedade, sensação de separação do próprio corpo, insensibilidade ao mundo físico, pesadelos... Este quadro provoca disfunções de comportamento que se repercutem na relação com outros membros da família e na dificuldade em fazer planos e tomar decisões.
A tudo isto soma-se, em alguns casos, uma tolerância à violência, como pertencendo ao que “faz parte” da relação. Obviamente, as mulheres não gostam da violência, fazem o possível para acabar com ela ou para a diminuir, mas algumas consideram que não é razão para pôr um fim à relação. Muitas mulheres que vivem há anos em relações violentas, continuam a falar de coisas como “compaixão” pelos maridos, acalentando ainda a esperança de “regeneração”. Esta atitude, tão estranha e até chocante para quem observa as coisas de fora, pode ser resultado dos referidos processos continuados de submissão e dependência e, também, de uma cultura patriarcal e machista que ainda paira por aí, desde as tradições culturais até às anedotas sobre “as mulheres”...
Antes de perguntar, precipitada e levianamente, por que é que alguém que apanha pancada não abandona o agressor, é bom tentar compreender como é estar “do outro lado”...
Violência Doméstica I:Era um homem normal...
Há poucos dias, um homem matou à catanada a mulher, a filha e a neta. A notícia chocou o país. Não foi caso para menos.
Hoje, o suposto homicida suicidou-se na prisão.
Os dados divulgados pela comunicação social não permitem, por agora, uma completa compreensão do caso. Mas, daquilo que saiu à luz, sobram temas para reflexão.
Não me interessa agora, embora a emoção o peça, centrarme neste caso. Aliás, o que escrevo a seguir não deriva deste caso, embora motivado por ele. Quero apenas chamar a atenção para três pontos importantes, que conto desenvolver aqui.
1. Parece que estamos perante um caso que entrará nas estatísticas da violência de género. Não é apenas isso. Mas também o é. Todos os anos algumas dezenas de mulheres morrem às mãos dos maridos ou companheiros no nosso país. E são apenas a pequenísssima parte dos casos de violência doméstica, sofrida por milhares de mulheres diariamente. Por cada morte publicitada nos jornais, há dezenas de milhares de casos reais, feitos de insultos, bofetadas e autênticos espancamentos selvagens. O crime é público (qualquer um o pode denunciar), mas a tradição é de “não meter a colher”. Até quando?
2. Há indícios, neste caso, de ter havido abuso sexual do sujeito sobre a sua filha. Infelizmente não é caso isolado, nem excepcional, embora não tenha de coexistir. Mas a maioria dos casos de abuso são cometidos no contexto familiar.
3. Era um tipo normal... É, talvez, a maior das ironias sempre presente na divulgação de tragédias deste tipo. Os vizinhos, boquiabertos, aparecem sempre a dizer que nada fazia prever. “Era um homem simpático”, “Todos o conheciamos e estimávamos!”; “Pareciam uma família normal...”. Os abusadores e maltratadores são homens aparentemente normais. Não têm cara esquisita, comportamentos públicos excêntricos, nem se distinguem dos outros todos na vida pública. O que os caracteriza é o comportamento patológico e criminoso na esfera privada.
E, no fundo, isto não pode surpreender-nos tanto assim. Afinal, quantos casos de violência doméstica conhecemos? Sabemos, ou não sabemos, que há mulheres, nossas conhecidas, amigas ou vizinhas que levam “porrada” de vez em quando? Quantos casos conhecemos de violência recorrente, dia após dia; ano após ano? E achamos que é coisa “do casal”, em que não devemos “meter a colher”. Até ao dia em que nos perguntem: “Conhecia o assassino?”
Bons princípios
"Só os jovens passam por momentos assim. Não quero dizer os novos demais; esses não conhecem, para falar verdade, momentos propriamente difíceis. É dado à adolescência o privilégio de viver antecipadamente os dias da sua vida na plena continuidade admirável de uma esperança ininterrupta e sem introspecções".
Assim começa "A Linha de Sombra", de Joseph Conrad.
Só para ouvir...
Não sei se morrem cedo os que Deus mais ama, mas sinto falta de Jeff Buckley. "It’s a broken Hallelujah".
Coisinhas chatas no Facebook
O Facebook é uma coisa boa. É onde as pessoas ultimamente se vêem, comunicam e, enfim, dão sinal de vida. Até porque, como se sabe, quem está vivo, está no Facebook. A não ser que, apesar de vivo e por estranha opção pessoal, se prefira ser um pária...
Dito isto, como declaração de interesses e para que se não pense que algo me move contra a coisa, acrescento então a lista das coisinhas que me chateiam no Facebook:
1. As correntes de partilha: alguém se lembra que é bom gostar de piriquitos, talvez por morte de algum espécime afectivamente significativo. E logo, por compulsão, publica uma fotografia do bicharoco, com uma frase melosa, tipo esta: “O meu dia é mais bonito, quando canta o piriquito!”. Após esta descarga concentrada de poesia longamente amadurecida, chega a sentença: “Se gostas de piriquitos, partilha!”. Ou parecido, mas em pior: “Se dás valor às coisas bonitas da vida, partilha!”. Aplique-se a lógica do piriquito aos cães e a outros animais estimáveis, ao yoga, a tomadas de posição a favor ou contra clubes, empresas ou governos, ao aquecimento global e até a Deus. Ora tudo isto é, obviamente, um disparate. É uma coisinha que me chateia!
2. As “sentenças zodiacais”: são uma espécie de magma intuitivo cósmico que circula a velocidades próximas da da luz pelo espectro virtual. “Leão: o rugido de quem sabe o que quer!”; “Gémeos: condenado a amores profundos!”; “Touro: a força e a persistência são os melhores trunfos!”; etc..., etc... e sempre com imagens de equiparável transcendência significativa. Esta difusão endémica da ciência astral é outra coisinha que me chateia.
3. Filosofia de pacotilha: impressiona a quantidade de máximas e chavões, citações e slogans que nos ensinam a bem viver! Umas de autor célebre, outras de eruditos anónimos. Encontra-se Nietzsche ao lado de Lady Gaga e lá está a pérola de São Tomás de Aquino, corroborado por Sean Penn ou pela vizinha do segundo esquerdo. Toda a sabedoria do mundo, debitada em pílulas de uma só linha. O Homem tem sempre uma circunstância por perto, a vida sem amor é morte antecipada e a inveja rói por dentro sem se ver. Isto também me chateia...
4. Simplificação redutora: Por um lado, publicar mais de uma frase no Facebook é perder tempo. Ninguém vai ler... Por outro, a maior parte da interacção resume-se à resposta típica do adolescente a qualquer questão complexa: “Gosto”; “Não gosto”. E pronto. Está tudo dito. Ora, isto chateia-me, porque eu quase nunca “gosto” simples e totalmente, nem “Não gosto” completamente.
E a quem lhe importa o que me chateia ou não no Facebook? Provavelmente, a ninguém. Mas deu-me para isto e no Facebook não cabia...
A dama de ferro
O filme é fraquinho. Não chega a criar a profundidade nem a complexidade que a senhora Thatcher merecia. Mas tem lá a Meryl Streep. E ela faz tudo sozinha...
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