Estranho...

"Quando estiveste longe muito tempo e regressas a casa, o que te incomoda não é o que mudou, mas o que está igual..."
... e conformares-te com o que reencontras não é adaptação, mas retrocesso.
Podes fingir... como se não tivesse acontecido nada; como se o regresso ao mesmo não significasse uma perda...
Para ti, o mesmo significa agora outra coisa.
Porque vês com olhos diferentes; porque as vias dos sentidos (simbólicas e neurológicas) criaram novas vias e roteiros e apreendem de forma distinta o "mesmo" que lhes chega. Porque tu és outro...
E agora sentes-te estrangeiro na pátria que já foi tua...

Pela estrada fora



É possível transformar "o rolo" de Jack Kerouac num filme? Walter Salles tentou. Ficou assim...

Sinais que o Inverno traz

De vez em quando, entre a espuma dos dias, aparecem acontecimentos que, sendo notícias menores nos alinhamentos noticiosos, acabam por ter ecos e ressonâncias que merecem bem um par de minutos de reflexão,
Das últimas semanas, destaco dois desses casos:
 
1. A mulher que não quis laquear as trompas: um tribunal de Sintra decidiu retirar sete dos dez filhos (menores de sete anos) de um casal e encaminhá-los para adopção, de forma definitiva e sem possibilidade de manutenção de qualquer laço futuro com os pais biológicos.
Os argumentos que sustentaram a sentença foram dois: baixo nível económico e a recusa da mulher em aceder à laqueação de trompas, desrespeitando assim o acordo de promoção e protecção de menores.
Tenha-se em consideração que, na avaliação do caso, não foram denunciados maus-tratos físicos, psicológicos, nem qualquer outro tipo de abuso.
Há aqui, em primeiro lugar, uma imensa e repugnante desumanidade.
Há, em segundo lugar, uma abusiva concepção das capacidades dos poderes públicos. Desde quando pode, num contexto de liberdade democrática que tanto se gosta de florear ao nível do discurso, aceitar-se que uma mulher possa ser obrigada a fazer uma laqueação de trompas? Como pode esta ingerência na esfera íntima, privada e livre de uma pessoa ser usada como argumento para sustentar uma decisão judicial?
Por ser pobre e por não abdicar da sua liberdade em assuntos que só a ela diziam respeito, esta mulher perdeu sete filhos. É um castigo que diz muito mais sobre o sistema que o permite, do que sobre esta família, agora desfeita.
 
2. Zico, o ser “senciente”: um cão arraçado de pitbull provocou a morte de um bebé de 18 meses.
Até há poucos dias, dezenas de milhares de pessoas tinham assinado uma petição pública para impedir o abate do Zico, decidido em cumprimento do previsto na lei.
À volta do assunto invocou-se um argumentário teórico que dilui as fronteiras entre animalidade e humanidade. Para o Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) há apenas “seres sencientes”, que se dividem, isso sim, em “animais humanos e não humanos”.
Bebendo das teorias de Peter Singer, esta gente advoga que o “especismo”, entendido como uma hierarquização das espécies, é um erro porque, dizem, a teoria da evolução supõe um continuum natural e, logo, um continuum ético.
Se há fronteiras a definir, elas devem estar, segundo esta peculiar lógica, entre seres “sencientes” e “não sencientes”, ou seja, entre seres capazes de sentir dor ou prazer e os outros…
A consciência deixa de ser, portanto, o critério distintivo.
A derivação popular desta teorização descamba para o lado emocional: “O bichinho não teve culpa”.
E nisto têm razão. E rebatem, eles próprios, a sua argumentação. O Zico não teve culpa. Porque a culpa supõe uma consciência ética e a capacidade de acção intencional que o Zico, pobre “ser senciente”, não tem. Lá se foi o “continuum ético”…
E, já agora, a criança chamava-se Dinis Janeiro.
Publicado na "Mensagem de Mora", edição de Janeiro 2013

Vozes


Improbabilidades redentoras


Um tetraplégico, rico e culto. Um desempregado dos subúrbios acabado de saír da prisão, contratado para prestar cuidados.
Um filme sobre uma amizade improvável, contado com humor e sensibilidade. De como se aprende muito de quem não se espera; de como se pode dar muito, mesmo sem disso dar conta; de como as voltas da vida trazem malas cheias de ironia e de surpresa. E de como aparentes casualidades podem abrir portas de significado e de esperança.
Inspirado numa história real, que se conta aqui.

Sobre Deus e a sua inexistência


No passado dia 23 de Fevereiro realizou-se, na Universidade de Oxford, um debate entre Richard Dawkins, talvez o mais conhecido e reputado 'ateísta científico' e Rowan Williams, Arcebispo de Cantuária, líder da Igreja Anglicana. O tema foi "A natureza do ser humano e a questão da sua origem". Não se descobriu nenhum dado novo, não se chegou a nenhum consenso confortável, não se converteu ninguém, nem ninguém perdeu a fé.  Mas é sempre interessante assistir a uma conversa inteligente.

Downton Abbey



Começou este sábado a ser transmitida na SIC a série Downton Abbey, depois de ter passado na Fox Life. É, sem dúvida, das melhores séries actualmente em exibição.
Traz reminiscências de "Reviver o passado em Brideshead", de há trinta anos atrás e, sobretudo, de Gosford Park, também escrito, aliás, por Julian Fellowes. A não perder.

Violência Doméstica II: Por que é que ela não o deixa?

Quem tem a sorte de não fazer parte dos dinamismos viciados das relações violentas, tende a simplificar as coisas. E perante casos de violência de género, há quem pergunte com singeleza de espírito: mas por que é que ela não o deixa?
O primeiro dado a reter é que, de facto, muitas das mulheres agredidas acabam por abandonar as relações. Os estudos de Jacobson e Gottman, por exemplo, sugerem que em mais de metade dos casos é isso que acontece.
E nos outros casos?
Em primeiro lugar, convém lembrar que é muito mais fácil entrar numa relação violenta do que sair dela. E o medo cumpre aqui um papel central. Um medo que, com o tempo, se tornou quase um estado de espírito permanente; que se transformou no principal critério na hora de tomar qualquer decisão, desde as insignificantes, como decidir que roupa vestir, até às fundamentais, como a de abandonar ou não a relação.
E este medo tem fundamento. As possibilidades de ser brutalmente agredida ou até assassinada aumentam exponencialmente durante os meses posteriores à separação. Confiram-se as estatísticas...
Em segundo lugar, muitas mulheres enredadas em relações assim, não dispõem de recursos, nem de independência financeira. Aliás, faz parte da dinâmica destes casos a dependência dos agressores, que eles se asseguram de manter, como forma de controlo. A esta percepção de vulnerabilidade económica, soma-se, frequentemente, a presença de filhos pequenos que, por um lado não se quer deixar e, por outro, se pensa impossível sustentar.
Em terceiro lugar, depois de ser submetida a abusos físicos e psicológicos durante muito tempo, de forma sistemática, a vítima é despojada da sua auto-estima, até ao ponto de chegar a acreditar que precisa do seu marido para sobreviver. O mais frequente é que uma mulher maltratada anos a fio se tenha a si mesma em baixa conta, se considere incapaz, insegura e totalmente dependente daquele que a agride.  O marido maltratador passa anos a dizer-lhe que não vale nada, que é incompetente, feia e estúpida. E, com o tempo, isso interioriza-se. É comum que estas mulheres acabem por apresentar os sintomas típicos do Sindrome de Stress Pós-Traumático: depressão, ansiedade, sensação de separação do próprio corpo, insensibilidade ao mundo físico, pesadelos... Este quadro provoca disfunções de comportamento que se repercutem  na relação com outros membros da família e na dificuldade em fazer planos e tomar decisões.
A tudo isto soma-se, em alguns casos, uma tolerância à violência, como pertencendo ao que “faz parte” da relação. Obviamente, as mulheres não gostam da violência, fazem o possível para acabar com ela ou para a diminuir, mas algumas consideram que não é razão para pôr um fim à relação. Muitas mulheres que vivem há anos em relações violentas, continuam a falar de coisas como “compaixão” pelos maridos, acalentando ainda a esperança de “regeneração”. Esta atitude, tão estranha e até chocante para quem observa as coisas de fora, pode ser resultado dos referidos processos continuados de submissão e dependência e, também, de uma cultura patriarcal e machista que ainda paira por aí, desde as tradições culturais até às anedotas sobre “as mulheres”...
Antes de perguntar, precipitada e levianamente, por que é que alguém que apanha pancada não abandona o agressor, é bom tentar compreender como é estar “do outro lado”...

Violência Doméstica I:Era um homem normal...


Há poucos dias, um homem matou à catanada a mulher, a filha e a neta. A notícia chocou o país. Não foi caso para menos.
Hoje, o suposto homicida suicidou-se na prisão.
Os dados divulgados pela comunicação social não permitem, por agora, uma completa compreensão do caso. Mas, daquilo que saiu à luz, sobram temas para reflexão.
Não me interessa agora, embora a emoção o peça, centrarme neste caso. Aliás, o que escrevo a seguir não deriva deste caso, embora motivado por ele.  Quero apenas chamar a atenção para três pontos importantes, que conto desenvolver aqui.
1. Parece que estamos perante um caso que entrará nas estatísticas da violência de género. Não é apenas isso. Mas também o é. Todos os anos algumas dezenas de mulheres morrem às mãos dos maridos ou companheiros no nosso país. E são apenas a pequenísssima parte dos casos de violência doméstica, sofrida por milhares de mulheres diariamente. Por cada morte publicitada nos jornais, há dezenas de milhares de casos reais, feitos de insultos, bofetadas e autênticos espancamentos selvagens. O crime é público (qualquer um o pode denunciar), mas a tradição é de “não meter a colher”. Até quando?
2. Há indícios, neste caso, de ter havido abuso sexual do sujeito sobre a sua filha.  Infelizmente não é caso isolado, nem excepcional, embora não tenha de coexistir. Mas a maioria dos casos de abuso são cometidos no contexto familiar.
3. Era um tipo normal... É, talvez, a maior das ironias sempre presente na divulgação de tragédias deste tipo. Os vizinhos, boquiabertos, aparecem sempre a dizer que nada fazia prever. “Era um homem simpático”, “Todos o conheciamos e estimávamos!”; “Pareciam uma família normal...”. Os abusadores e maltratadores são homens aparentemente normais. Não têm cara esquisita, comportamentos públicos excêntricos, nem se distinguem dos outros todos na vida pública. O que os caracteriza é o comportamento patológico e criminoso na esfera privada.
E, no fundo, isto não pode surpreender-nos tanto assim. Afinal, quantos casos de violência doméstica conhecemos? Sabemos, ou não sabemos, que há mulheres, nossas conhecidas, amigas ou vizinhas que levam “porrada” de vez em quando? Quantos casos conhecemos de violência recorrente, dia após dia; ano após ano? E achamos que é coisa “do casal”, em que não devemos “meter a colher”. Até ao dia em que nos perguntem: “Conhecia o assassino?”

Bons princípios

"Só os jovens passam por momentos assim. Não quero dizer os novos demais; esses não conhecem, para falar verdade, momentos propriamente difíceis. É dado à adolescência o privilégio de viver antecipadamente os dias da sua vida na plena continuidade admirável de uma esperança ininterrupta e sem introspecções".

Assim começa "A Linha de Sombra", de Joseph Conrad.