O Papa e a resignação


O Papa anunciou a sua resignação.
No pleno exercício da sua liberdade e em fidelidade à sua consciência.
É uma decisão legítima, compreensível e razoável. E respeitável.
Não me sinto triste, nem me alegro.
Não me sinto órfão. Ninguém morreu.
Em nada afecta a minha fé, até porque a minha fé não está depositada no Papa, qualquer que ele seja, mas em Deus.

Dito isto, três notas:

1. Decisão exemplar: o que é estranho não é que Bento XVI tenha decidido resignar. O estranho é ser estranho. Parece-me ser uma prova de bom senso e de sabedoria. E um bom sinal.

2. Pontificado curto: foram muitos os que nestes dias se têm referido assim ao pontificado de Bento XVI. Oito anos não são um pontificado curto. Em democracia, os mandatos são mais curtos e as mudanças acontecem. E a História acontece. Isto não é uma comparação. É uma constatação.

3. Elogio: um dos eixos centrais da intervenção de Bento XVI foi a conciliação entre Fé e Razão. Com êxito reconhecido e justificado. Se a fé pode e deve iluminar a razão, também é certo que a fé sem a razão é coxa. E perigosa.

Estranho...

"Quando estiveste longe muito tempo e regressas a casa, o que te incomoda não é o que mudou, mas o que está igual..."
... e conformares-te com o que reencontras não é adaptação, mas retrocesso.
Podes fingir... como se não tivesse acontecido nada; como se o regresso ao mesmo não significasse uma perda...
Para ti, o mesmo significa agora outra coisa.
Porque vês com olhos diferentes; porque as vias dos sentidos (simbólicas e neurológicas) criaram novas vias e roteiros e apreendem de forma distinta o "mesmo" que lhes chega. Porque tu és outro...
E agora sentes-te estrangeiro na pátria que já foi tua...

Pela estrada fora



É possível transformar "o rolo" de Jack Kerouac num filme? Walter Salles tentou. Ficou assim...

Sinais que o Inverno traz

De vez em quando, entre a espuma dos dias, aparecem acontecimentos que, sendo notícias menores nos alinhamentos noticiosos, acabam por ter ecos e ressonâncias que merecem bem um par de minutos de reflexão,
Das últimas semanas, destaco dois desses casos:
 
1. A mulher que não quis laquear as trompas: um tribunal de Sintra decidiu retirar sete dos dez filhos (menores de sete anos) de um casal e encaminhá-los para adopção, de forma definitiva e sem possibilidade de manutenção de qualquer laço futuro com os pais biológicos.
Os argumentos que sustentaram a sentença foram dois: baixo nível económico e a recusa da mulher em aceder à laqueação de trompas, desrespeitando assim o acordo de promoção e protecção de menores.
Tenha-se em consideração que, na avaliação do caso, não foram denunciados maus-tratos físicos, psicológicos, nem qualquer outro tipo de abuso.
Há aqui, em primeiro lugar, uma imensa e repugnante desumanidade.
Há, em segundo lugar, uma abusiva concepção das capacidades dos poderes públicos. Desde quando pode, num contexto de liberdade democrática que tanto se gosta de florear ao nível do discurso, aceitar-se que uma mulher possa ser obrigada a fazer uma laqueação de trompas? Como pode esta ingerência na esfera íntima, privada e livre de uma pessoa ser usada como argumento para sustentar uma decisão judicial?
Por ser pobre e por não abdicar da sua liberdade em assuntos que só a ela diziam respeito, esta mulher perdeu sete filhos. É um castigo que diz muito mais sobre o sistema que o permite, do que sobre esta família, agora desfeita.
 
2. Zico, o ser “senciente”: um cão arraçado de pitbull provocou a morte de um bebé de 18 meses.
Até há poucos dias, dezenas de milhares de pessoas tinham assinado uma petição pública para impedir o abate do Zico, decidido em cumprimento do previsto na lei.
À volta do assunto invocou-se um argumentário teórico que dilui as fronteiras entre animalidade e humanidade. Para o Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) há apenas “seres sencientes”, que se dividem, isso sim, em “animais humanos e não humanos”.
Bebendo das teorias de Peter Singer, esta gente advoga que o “especismo”, entendido como uma hierarquização das espécies, é um erro porque, dizem, a teoria da evolução supõe um continuum natural e, logo, um continuum ético.
Se há fronteiras a definir, elas devem estar, segundo esta peculiar lógica, entre seres “sencientes” e “não sencientes”, ou seja, entre seres capazes de sentir dor ou prazer e os outros…
A consciência deixa de ser, portanto, o critério distintivo.
A derivação popular desta teorização descamba para o lado emocional: “O bichinho não teve culpa”.
E nisto têm razão. E rebatem, eles próprios, a sua argumentação. O Zico não teve culpa. Porque a culpa supõe uma consciência ética e a capacidade de acção intencional que o Zico, pobre “ser senciente”, não tem. Lá se foi o “continuum ético”…
E, já agora, a criança chamava-se Dinis Janeiro.
Publicado na "Mensagem de Mora", edição de Janeiro 2013

Vozes


Improbabilidades redentoras


Um tetraplégico, rico e culto. Um desempregado dos subúrbios acabado de saír da prisão, contratado para prestar cuidados.
Um filme sobre uma amizade improvável, contado com humor e sensibilidade. De como se aprende muito de quem não se espera; de como se pode dar muito, mesmo sem disso dar conta; de como as voltas da vida trazem malas cheias de ironia e de surpresa. E de como aparentes casualidades podem abrir portas de significado e de esperança.
Inspirado numa história real, que se conta aqui.

Sobre Deus e a sua inexistência


No passado dia 23 de Fevereiro realizou-se, na Universidade de Oxford, um debate entre Richard Dawkins, talvez o mais conhecido e reputado 'ateísta científico' e Rowan Williams, Arcebispo de Cantuária, líder da Igreja Anglicana. O tema foi "A natureza do ser humano e a questão da sua origem". Não se descobriu nenhum dado novo, não se chegou a nenhum consenso confortável, não se converteu ninguém, nem ninguém perdeu a fé.  Mas é sempre interessante assistir a uma conversa inteligente.

Downton Abbey



Começou este sábado a ser transmitida na SIC a série Downton Abbey, depois de ter passado na Fox Life. É, sem dúvida, das melhores séries actualmente em exibição.
Traz reminiscências de "Reviver o passado em Brideshead", de há trinta anos atrás e, sobretudo, de Gosford Park, também escrito, aliás, por Julian Fellowes. A não perder.